segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vinte e dois

Estava dia desses relendo meu antigo blog e resmungando coisas a respeito do trecho que eu mudaria, da vírgula que eu não colocaria, do assunto que não interessa mais, quando entrou no meu quarto a Marcelle daquela época. De cara feia, ela cruzou os braços e perguntou o que foi que eu não gostei. Olhei-a com arrogância e explanei as minhas críticas. A pirralha me ouviu até o fim, quase sem piscar. Terminei e ela disse, com aquele nariz para cima: Ok, grandona, mas meu propósito não era ter mais de 22 anos. Olhei-a. Sorri, tinha esquecido o quanto ela é chata. E aquela solidão? – perguntei. A vida é assim, não é? – ela respondeu, sem saber a resposta. Não gostei de olhar para aquele vazio – eu disse. O passado não existe – disse ela. Não fales bobagem, menina, de que então serão feitos meus ossos, Não sei de ossos, grandona, minha tarefa é ir e ir por essa estrada que nem vejo, Fazes muito bem, gosto da tua força e da tua cara feia, Meus pés doem o tempo todo e meu peito é um buraco, Teus pés serão de ossos como os meus e encontrarás teu coração, Tenho esse pressentimento e essa esperança, Nem sabes o quanto a vida pode ser doce. Pausa.

Olhando para ela, lembrando dela, vendo seu rosto de menina querendo se fazer de forte, entendi o quanto eu lhe devia. Arrumei o amassado na orelha de uma das folhas e devolvi-lhe os textos. Ela os pegou, cuidadosa, fixou-os por um momento, empinou o nariz e disse: És mais feliz que eu, grandona.

Sorri para ela.

Sou muito mais feliz que tu, menina.

terça-feira, 28 de julho de 2009

De palavras (e balões).














1.

(Uma sala. Não há móveis, exceto uma mesa. Sobre ela há um telefone. Ressoa o som de telefone tocando).

- Alô.
- Meu amor, coração, balão. Virtuose de laços, traços, braços. Mamãe fumei maconha, agora essa engronha. Ventos levam o balão, coração, o nada: um pedaço de mamão.
(Pausa).
- Vai tomar no cu.

Uma voz em off diz: É isso que eu acho de pseudo-poesia pé no saco.

(Apagam-se as luzes).

2.
(A sala de uma casa).

A Senhora Obesa mantém fixos os olhos na TV enquanto a Garotinha brinca com uma boneca no tapete. A Senhora balbucia:

- Essa mulher é insensível.
A garotinha repete:
- Essa mulher é insensível.
Em coro, vozes dizem:
- Errou, campeão.

3.
(Pausa. A cena percorre cadeiras vazias. Um palco é demonstrado).

A Leoa sobe e testa o microfone. Batidas amplificadas enchem o teatro. Na platéia, veem-se a Senhora Obesa e a Garotinha. A voz que sai dos auto-falantes é firme e pausada:

- Não preencham com floreios o não olhar nos olhos.

A Senhora Obesa sorri para a Garotinha. Elas se levantam e saem, tirando os acessórios do figurino e dando-se boa noite, até amanhã. A Leoa desaparece. A cortina fecha e as luzes se apagam.

4.
(Escuro. Uma luz escassa e trêmula inicia a iluminar o teatro vazio).

A Moça entra levando o Moço pela mão. Com a outra, ilumina o caminho por entre as cadeiras com uma vela. Pede que ele sente. Ele não entende, olha para ela. Ela sorri, e quando ela sorri, ele se sente tranqüilo. As cortinas se abrem, o palco se ilumina de azul e uma música inicia. Um casal de bailarinos entra suspenso em cabos. O Moço sorri para a Moça. A dança no palco é delicada e alegre. A Moça toca as pontas dos dedos nas mãos do Moço e sorri de volta. Ele diz:
- São nossas almas dançando.
Sorrindo, ela aproxima seu rosto do dele:
- São nossas almas dançando.

5.
(Luzes desligadas. Ouve-se o som de uma voz feminina reproduzida por um rádio):

- Não há névoa no que vejo. Poucas coisas são tão claras quanto esse aperto no peito que me acompanha onde estiver teu rosto, e te digo, ele está em toda parte. O aperto se espalha e me enche inteira, é aí que sinto como o balão de que falaste. És mais lindo que todas as coisas lindas que já vi. Não há exagero, acredita-me. Acredita-me: há momentos em que a beleza que vejo nas tuas mãos e nas pontas dos teus dedos e no teu sorriso lindo de menino me é ensurdecedora; se sigo te olhando, em segundos já não vejo, não sinto, não me movo – então sei que novamente me tornei balão. Não encontro comparação para a experiência de flutuar e dar aos teus sentidos a absoluta tutela dos meus; nem para o chão que ofereces, nem para o imediato encantamento que causaste ao bicho que mora no meu chão e que agora sorri endoidecido rosnando para as tristezas que vez e outra passam demonstrando a intenção de chegar perto de ti – é nos muitos momentos em que as palavras faltam que sei o quanto te amo.

6.
(Sala de uma casa. Há semelhança com a sala da primeira senhora. É início de manhã ou fim de tarde; a janela está aberta. A Leoa entra. Posiciona-se diante da platéia).

- Não preencham com floreios o não olhar nos olhos. Há que se ter coragem para ver. Quando os olhos não podem ser os seus, não há verdade. Assumam aquilo que sabem. Há certezas que não se explicam. Nem tudo que é considerado fato o é por ter explicação.

(Fecham-se as cortinas).

sábado, 11 de julho de 2009

Posta de uma vez, guria

Estava esses dias lendo O Patinho Feio e pensando no quanto a pata mãe dele é uma filha da puta, quando lembrei do poço abandonado que havia no terreno atrás da nossa casa, em Santo Antônio.

Minha irmã vivia falando sobre o fantasma de uma guria que caiu no tal poço, e eu morria de medo dele. Não lembro bem; lembro que havia fantasma e tragédia. Hoje suspeito que era uma das histórias que faziam parte do repertório educacional da minha irmã para me afastar de poços e coisas desse tipo. De fato, funcionou: não me tornei o fantasma da segunda guria que morreu porque não respeitou o território do fantasma da primeira guria e se deixou levar pela curiosidade, posteriormente contado dessa forma, seguido de muitas versões funestas para o acidente e concluído como a curiosidade sendo a motriz de toda a catástrofe. É um irritante xeque anunciado com um irritante meio sorriso por um oponente irritante a conclusão de que uma ilustração sobre isso tenha, por fim, livrado de tornar-me eu própria uma ilustração sobre isso, “Arrá!”, rápida e obstinadamente interrompo eu, com voz alta e o indicador direito em riste, “Há um grande zero no denominador dessa conclusão, caro pensamento-catastrofizador-filho-de-uma-puta, ela usa a certeza de que o acidente aconteceria e, acontecendo, não admite outro desfecho que não aquele no qual eu morreria, e, eu morrendo, não admite outro desfecho que não aquele no qual eu me transformaria em uma alma penada – pausa –, Aí está, filho da mãe, a ilegitimidade do teu xeque” – e apertaria os lábios e vibraria veemente o dedo em riste olhando para o horizonte – mas não enveredemos por esse caminho, ou chegaremos à extensa discussão sobre Chapeuzinho Vermelho e tantas outras personagens que, trocadas em miúdos, versam sobre a terrível prática de educação da curiosidade.

Para os meus filhos, a pata vai dar um pau em todo mundo que tirar sarro do filhote dela e ele vai virar pato, não cisne.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Batidão do meu Coração (ou Dos Inícios)

- Psiu.
- Hi, do I know you?
- I. I... Broken. Me-broken-English, não falar, entendeu? Me, Marcelle. Você... Esquece.

***

Vamos de novo.

- Oi.
- Oi.
- Como vai?
- Eu. Eu, eu, eu. Eu isso, eu aquilo. Eu gosto de dar nos dedos das pessoas. Super legal.

(Espanto. Correr. Correeeer correr correr. Não parar mais de correr. Ainda ta vindo? Na dúvida, correr).

***

De novo.

- Uau.
- Tá bêbada?
- Cacete. Vou t-te dizer uma cooisa. Descobri que a vida, meu. A vida é que nem aprender a usar a embreaggggem. Eu não sei usar a embreaaggggem, cara. Te considero. (Pausa para tentar lembrar o que tava falando).

***

Capaz, é assim mesmo. Não desiste.

- E aiiiiií!!!
- E aiiiiií!!!
- Hahahahahahahahahahahahahahahhahaha!
- Haaaaahahahahahahahhahahahahahahahaha!
Achei. Oba.
(Silêncio)
- Ué. Porra, sumiu de novo. Vai à merda.

Quer saber, vão tudo à merda. Desisto.

***

- Oi.
- Hhm.
- ;) .
- ... :) ...
- :P
- :P!
- :D!!!
- :D!!!

(...).

Hihi.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O palhaço

Era fim de tarde e eu estava deitada no sofá, olhando para o teto e pensando na vida, como de costume. O sol entrava baixo e alaranjado pela janela. A Tina latia sem parar para algum ciclista que passava por ali naquele momento, ou para o carteiro, talvez; pensei em ir olhar, mas fiquei com preguiça. Foi uns cinco minutos depois, um palhaço entrou pela porta aberta, dando piruetas.

Olhei para ele com o canto do olho. Voltei a olhar para o teto.

Ele berrou:

- A Maaaaarcelle tirou deeeeez!!!

Lembro exatamente o que pensei: “Saco, todos os seres imaginários que vêm me encher os tubos têm que chegar berrando”.

Respondi:

- Não enche.

Ele se aproximou, pôs a cara diante da minha e berrou:

- Queeee bonita a Marcelleee, ela tirou deeeezzz!

O bafo, o cheiro de tinta, o sorriso grande demais e minha falta de paciência me fizeram empurrar a cara dele para o lado. Ele desfez o sorriso imediatamente e, ríspido, gritou, com voz grossa:

- Tu tocou em mim!

Ai saco, pensei.

- TU TOCOU OS TEUS DEDOS EM MIM!!!

Comecei a ficar preocupada. Será que, se o palhaço quisesse me dar um soco, por exemplo, sendo um ser imaginário, será que, enfim... Como é que ele seria capaz de me bater? Não foi possível terminar o pensamento, porque em meia fração de segundo o palhaço me acertou um sopapo na orelha que me fez ver estrelas. Segurei a mão dele, entramos em uma luta bizarra, eu tentando me defender, o palhaço em cima de mim, desfigurado, repetindo que não era para nunca mais tocar nele. Coloquei minhas mãos em volta do seu pescoço, tentei apertar forte, mas é claro que não deu certo porque faz um tempão que não vou na academia. Foi a vez dele ter essa idéia. Apertou tanto o meu pescoço que não consegui nem gritar. Não demorou muito, desmaiei.

No tempo que fiquei desacordada, acho que tive um sonho ou algo do tipo. Eu era criança, muito pequenininha, estava no mar, e ninguém estava tomando conta de mim. Eu olhava para todos os lados, mas nada, não tinha ninguém. Comecei a chorar. Vi algumas pessoas longe, tive a esperança de que fosse o pai e a mãe, corri até eles, mas não eram, e o meu desespero aumentou. Corri tanto, chorei tanto, que acabei crescendo sem me dar conta, e continuava procurando e me perguntando por que eles tinham ido embora sem mim.

Bom, acordei na sala de casa, no chão. O palhaço estava sentado no sofá, com as pernas cruzadas, olhando para mim com a maquiagem borrada, a camisa amarela meio para dentro, meio para fora das calças; os braços estavam cruzados e a cara dele era a de quem ia me passar um xingão. Odeio tomar xingão, com todas as minhas forças.

Pensei: o que a Sibele me diria? (A Sibele é a minha terapeuta de verdade e de um tempo para cá às vezes a voz dela aparece como a do Grilo Falante dentro da minha cabeça).

Sentei no chão, olhei o palhaço e disse para ele:

- Palhaço, sendo um ser imaginário, tu me pertence.

Ele não disse nada.

- E se tu me pertence - continuei -, então eu mando em ti.

Ele continuou quieto, me olhando.

- E se eu mando em ti, então é o seguinte. Quando eu tirar dez, tu vai vir me dar os parabéns. Quando eu tirar nove, tu vai vir me dar os parabéns. Quando eu tirar oito, tu VAI me dar os parabéns. Quando eu tirar sete, a mesma coisa.

Ele não se moveu. Parecia incrédulo.

- E quando eu tirar zero, tu vai me ajudar a arrumar a casa e vai me fazer chazinho. E se eu não quiser fazer nada, tu vai me fazer chazinho e dizer que tudo bem, que eu não tenho que tirar dez.

Ele me olhou, eu terminei minha instrução e empinei o nariz. Encaramos um ao outro durante breves instantes. Enfim, ele falou:

- Ou o quê?

Respondi, rápido:

- Ou o Leão que está ali na porta vai te comer.

Ele olhou para a porta e finalmente mudou de expressão. Olhou para mim novamente e disse:

- Tu nunca vais conseguir ficar sem mim, tu sabe muito bem que algo horrível vai acontecer se tu não tirar dez...

O Leão rugiu alto e entrou. O palhaço deu um salto, subiu no sofá, olhou para mim apavorado. Não me movi. Quando o Leão avançou com a boca aberta, uma fumaça começou a sair dos sapatos do palhaço e ele diminuiu de tamanho. Diminuiu, diminuiu, diminuiu, e no lugar dele, no meio das roupas, apareceu um gatinho preto de olhos muito verdes.

Olhei para o Leão, que olhou para o gato com desprezo. Fiquei com pena do gatinho, me aproximei, mas, quando expressei a intenção de pegá-lo, o Leão rugiu tão alto que cheguei a tremer. Entendi o recado.

Abri a janela e joguei o gato longe.